Um papel possível da educação empreendedora na redução das desigualdades

Se queremos reduzir as desigualdades, será necessário implementar o princípio do tratamento especial e diferenciado para países em desenvolvimento, em particular os países menos desenvolvidos. Também precisaremos  melhorar a regulamentação e monitoramento dos mercados e instituições financeiras globais e fortalecer a implementação de tais regulamentações.

Em tempos de descrença em relação a políticas de ação afirmativa como a de reserva de cotas em universidades, o parágrafo anterior pode soar como uma afronta. Só que o ele não é de nossa autoria — trata-se de uma colagem de trechos do texto oficial da ONU sobre a ODS10 — Redução das Desigualdades.

Outra ODS, a 4 — Educação de Qualidade, afirma ser necessário “aumentar substancialmente o número de jovens e adultos que tenham habilidades relevantes, inclusive competências técnicas e profissionais, para emprego, trabalho decente e empreendedorismo”. A noção de que empreender é algo que se pode aprender é recente, e sua aparição em um texto oficial da ONU sobre educação não deve ser ignorada. Como pensar a relação entre a ODS10 e a ODS4 a partir desse recorte que evidencia uma aparente contradição entre regulamentação e livre-iniciativa (empreendedorismo)?

Práticas inovadoras em educação, como metodologias ativas e aprendizagem baseada em projetos, têm em comum pelo menos um apreço e uma aposta na autonomia do educando — na sua capacidade de escolher, decidir e agir por si só, de maneira alinhada com seus propósitos. Essa capacidade, como bem sabemos, é fundamental para empreendedores. Só que, no campo da pedagogia, a noção não é de hoje, e tem raízes bem definidas. A última obra lançada em vida pelo educador brasileiro Paulo Freire, em 1996, se chama justamente Pedagogia da Autonomia. Nela, Freire define o educando como ser ativo e autônomo, afastando-se da noção tradicional do aluno como depositário de um conhecimento que lhe é fornecido, em via de mão única, por um professor detentor de um saber estabelecido. O interessante, para nossa discussão, é que o livro de Freire também traga duras críticas ao neoliberalismo. Para ele, seria do interesse do status quo neoliberal um sistema de educação que formasse cidadãos passivos e pacíficos, meros reprodutores da ordem estabelecida. Pessoas autônomas, capazes de pensar, decidir e agir por si sós, seriam uma ameaça a um sistema que perpetua a desigualdade e se alimenta dela para prosperar. Isso aparentemente reforça a noção de que seria contraditório apostar em uma educação empreendedora com vistas à redução das desigualdades sociais. Como pensar, então, a relação possível entre as ODSs 10 e 4, tal qual formuladas pela ONU?

Para arriscar uma resposta, acreditamos ser necessário analisar a questão dos propósitos e do alcance da educação empreendedora sob, pelo menos, duas perspectivas diferentes: a do mercado e a do educando.

Do ponto de vista do mercado, é necessário educar para empreender por pelo menos um motivo muito simples e urgente: não só os recentes avanços tecnológicos, mas toda uma sucessão de fatos históricos, têm alterado radicalmente o que significa trabalhar e, consequentemente, o perfil de mão-de-obra exigido. Se há algumas décadas o que se almejava era um emprego fixo e estável em uma empresa estabelecida, com o amparo de uma legislação trabalhista forte e sindicatos organizados e atuantes servindo como instâncias regulatórias das relações de trabalho, hoje a terceirização e a flexibilização dessas relações são a regra e não a exceção.

Cada vez mais, espera-se que os trabalhadores tornem-se empreendedores, seja por necessidade, seja por oportunidade. Não à toa, estão em voga expressões como “empreender a própria vida”, ou a noção de “intraempreendedorismo” (quase uma contradição em termos se considerarmos a clássica divisão entre trabalho assalariado e capital, que parece se dissolver cada vez mais). Para que consiga ocupar os novos cargos ou os cargos que restarão após as anunciadas transformações do mercado, é necessário que o trabalhador possua, mais do que conhecimentos técnicos ou experiência prática numa função, as chamadas soft skills, competências como criatividade, capacidade de resolução de problemas complexos e trabalho em equipe. (Há quem diga que não haverá tais cargos em número suficiente e, portanto, não deveria soar estranho a nenhum ouvido que Mark Zuckerberg tenha defendido a Renda Básica Universal.)

Iniciativas educacionais voltadas para o empreendedorismo são, portanto, necessárias para o mercado, já que qualificam a mão-de-obra para os cargos que exigem as soft skills e outras habilidades menos “soft” das quais o ensino formal (ainda) não dá conta, como por exemplo conhecimentos em programação. Não à toa, programas com vistas à formação empreendedora de jovens periféricos têm surgido e se estabelecido nos últimos anos, em grande parte financiados por fundações e institutos ligados a grandes corporações que têm um interesse direto e urgente na qualificação dessa mão-de-obra.

Mas quais seriam as consequências da educação empreendedora para o educando? É sempre necessário lembrar que ele está no centro de todo processo educativo, sendo ao mesmo tempo seu principal beneficiário e instância sem a qual o processo em si não pode se dar.

Trabalhando há anos com educação empreendedora junto a um público socialmente vulnerável, podemos afirmar que tais processos educativos têm pelo menos duas consequências palpáveis e imediatas para o educando: a primeira, como seria de se esperar, é um aumento nas suas chances de ingresso no mercado de trabalho formal devido ao desenvolvimento das habilidades exigidas — e, mais do que isso, à aquisição de um letramento específico e da habilidade de operar um jargão.

A segunda é o desenvolvimento de uma capacidade de análise crítica que anda de mãos dadas com a noção de autonomia. O desenvolvimento da autonomia cria condições para uma compreensão mais aprofundada da realidade, permitindo que o educando torne-se cada vez mais agente da sua própria existência. As mesmas habilidades exigidas para a resolução de problemas complexos também conferem ao indivíduo a capacidade de refletir a respeito de si mesmo e de sua inserção na sociedade. Ou seja, um indivíduo que passe por um processo de educação empreendedora que tenha sido pensado e executado de maneira aprofundada e responsável tende a sair desse processo tendo desenvolvido sua capacidade de escolha. E essa capacidade é por si só um risco ao status quo.

Se essa capacidade poderá ser exercida, talvez sejam outros quinhentos, já que as condições objetivas de vida de um indivíduo condicionam as direções possíveis para seu desenvolvimento. Quantas pessoas brilhantes, capazes, autônomas e críticas não estão empacotando nossas compras no mercado ou dirigindo um Uber doze horas por dia porque, se não o fizessem, não teriam condições de comprar comida no mês seguinte? Quantas jovens mulheres não chegam nem mesmo a poderem tentar empreender por se tornarem mães solo e se verem obrigadas a uma jornada dupla ou tripla para darem conta, sozinhas, da complicadíssima tarefa de criar um ser humano, devido à maneira (ainda) profundamente desigual de encaramos coletivamente os deveres de homens e mulheres em relação à paternidade e à maternidade?

Mas mesmo essa contradição entre a autonomia e as condições objetivas de vida talvez seja semente e porta de entrada para o estabelecimento de modelos organizacionais disruptivos que sejam efetivamente um passo na direção da redução das desigualdades e não só mais uma faceta da progressiva precarização do trabalho. Como seria a Uber se, em vez de uma corporação, fosse uma cooperativa? A pergunta pode soar estranha aos nossos ouvidos acostumados à inexorabilidade do mercado e dos interesses dos acionistas, mas a resposta a ela inevitavelmente vem sendo gestada nas mentes e corações daqueles que, historicamente exilados dos processos decisórios e da tomada de partido diante de suas próprias vidas, têm podido de maneira inédita desenvolver sua autonomia e sua capacidade de análise crítica.

Não há dúvidas de que, nesse caminho, há e haverá contradições entre essas duas instâncias — o mercado e a mão-de-obra. Resta saber se essas contradições darão origem pura e simplesmente a mais um capítulo da luta de classes ou se seremos capazes de ressignificar nosso modus operandi a ponto de dissolver essas contradições. A transformação seria enorme e dolorosa — lembremos do primeiro parágrafo e sua inclinação fortemente anti-neoliberal, apontando que no caminho para a redução das desigualdades algo ou alguém precisará regulamentar o livre-mercado (ou, cabe agora adicionar: escapar à sua lógica). Mas a consequência talvez fosse, finalmente, a redução efetiva das desigualdades sociais, mesmo que ela pareça ser uma utopia relegada ao plano das boas intenções.

publicado originalmente na publicação do Impact Hub São Paulo sobre a ODS #4 – Educação de Qualidade

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