De jovem pra jovem: reflexões sobre empatia e empoderamento no empreendedorismo social

Luiza Gianesella, da Redação

O empreendedorismo tem ocupado muitas manchetes e, mais recentemente, tem sido visto como uma possibilidade de afetar positivamente a realidade através dos chamados negócios sociais — nos quais a ideia é melhorar ou facilitar a vida de um número amplo de pessoas de maneira financeiramente sustentável, sem depender de doações ou editais.

É claro que, se esses negócios começam a substituir serviços básicos, o empreendedorismo social pode acabar virando uma forma de privatizar tudo — até aquilo que nunca deveria se transformar em produto ou serviço. No entanto, quando se voltam à resolução de problemas mais específicos, os negócios sociais têm potencial para oferecer soluções ágeis, inovadoras e adequadas aos seus contextos — muitas vezes, inclusive, em colaboração com o próprio poder público.

Muitas empresas inovadoras utilizam uma metodologia conhecida como Design Thinking, que coloca a usuária ou usuário no centro dos processos para garantir que o problema a ser resolvido venha sempre antes da solução. Mais do que ser alguém que tem uma ideia genial, um(a) empreendedor(a) precisa compreender profundamente as necessidades da(o) usuária(o) antes de começar a pensar em possíveis soluções. Não à toa, a primeira fase de um processo de design thinking é a Empatia: colocar-se no lugar da(o) outra(o) para ver a realidade com seus olhos.

Embora essa etapa do processo seja importantíssima, passamos apenas rapidamente por ela durante a oficina Chama Na Solução, que facilitei no início de dezembro (parte da iniciativa Geração Que Transforma, do UNICEF, implementada no Brasil pela Viração), porque a usuária ou o usuário potencial das soluções propostas pelos jovens praticamente coincidia com as empreendedoras e os empreendedores presentes – jovens de 14 a 24 anos, de diferentes regiões do país, que ao longo de 5 dias de oficina propuseram soluções para problemas que elas(es) mesmas(os) sentiam na pele. Nove equipes colocaram a mão na massa e as ideias em circulação para co-criar seus projetos e cinco delas foram selecionadas para receber um capital-semente de R$4mil e mentoria continuada para tirar suas ideias do papel.

Gelson da Silva, 20 anos, morador do bairro de Campo Grande (Rio de Janeiro), foi um dos participantes da oficina e integra o CIJoga, uma das iniciativas selecionadas. Para ele, é central que a própria juventude possa propor soluções para os seus problemas. E ele dá a dica: “Se quiserem achar saídas que já estão sendo pensadas há tempos, tragam os jovens para o centro da elaboração da solução, pois assim conseguirão alternativas cabíveis e efetivas, construídas em conjunto através do diálogo com uma parte potente da sociedade”.

Nós, da Viração, assinamos embaixo dessa ideia desde a nossa fundação. Karen dos Santos, de 16 anos, é moradora de São Miguel Paulista (São Paulo), participou da oficina e integra a Cia. EmQuadro, outra iniciativa contemplada. Em sua fala, resume bem a questão:

“Só entende a realidade quem a vive. Empatia é uma bela palavra, mas escuta ativa são duas palavras sensacionais!”

Oxalá a fase da empatia do processo de design thinking se torne cada vez menos necessária, à medida que não apenas as(os) jovens mas também as minorias e populações marginalizadas se apropriem dessas ferramentas tão elitizadas e tomem para si a tarefa de propor e executar soluções para seus problemas. Encurtando a distância entre empreendedores e usuários, talvez consigamos também diminuir algumas desigualdades – que estão na raiz da maior parte dos problemas que nos afetam coletivamente.

Conheça as iniciativas selecionadas no Chama Na Solução

A de Ajuda
Projeto que pretende capacitar jovens para atuarem como instrutoras e instrutores de idiomas e reforço escolar, gerando uma alternativa de renda para quem muitas vezes é rejeitado no mercado de trabalho ou não encontra propósito nos empregos disponíveis.
Site: adeajuda.com | Facebook: /adeajuda | Instagram: @adeajuda

Cia. EmQuadro
Companhia teatral cujo objetivo é apresentar peças e performances sobre machismo estrutural e empoderamento feminino em escolas públicas e outros espaços de encontro de jovens, seguidas de rodas de conversa e workshops sobre temas relacionados.
Facebook: /ciaemquadro | Instagram: @ciaemquadro

CIJoga – Caravana Itinerante da Juventude
O projeto vai realizar oficinas em escolas e outros espaços de encontro, levando informação sobre possibilidades de participação cidadã e facilitando a proposição de soluções pelos jovens para os problemas por que passam, incluindo-os na sociedade.
Facebook: /cijogarj | Instagram: @cijogarj

Produção Preta
Iniciativa que visa facilitar o acesso à formação profissional na área audiovisual para a juventude negra, periférica e LGBT no local onde o jovem já se encontra, diminuindo assim a necessidade de se deslocar até os bairros centrais para participar desse tipo de atividade.
Facebook: /producaoPRETA | Instagram: @producaopreta

Todas Fridas
Três das moderadoras da página vão criar campanhas de conscientização e materiais de divulgação sobre gravidez precoce, visando não apenas ajudar na prevenção do fato mas também na inclusão das mães adolescentes na escola, na família e na sociedade.
Site: todasfridas.com.br | Facebook: /todasfridasoficial | Instagram: @todasfridasoficial

Publicado originalmente na Edição nº114 da Revista Viração.

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